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José Botelho de Carvalho Araújo, natural de Vila Real, o 1º tenente faleceu na madrugada do dia 14 de outubro de 1918 no seu posto em combate contra os alemães, na ponte do improvisado caça-minas português NRP “Augusto Castilho” [ originalmente era um barco arrastão de nome "Elite" ], que nesse dia escoltava o paquete São Miguel, no mar dos Açores, que navegava do Funchal para Ponta Delgada. A canhoneira Mandovi, escalada para a proteção do paquete, ficou de guarda ao Funchal, cidade que tinha sido bombardeada a 12 de dezembro de 1917 pelo submarino U-156.

O heroísmo do comandante Carvalho Araújo no Caça-minas, ao serem atacados pelo submarino alemão U-139 de 1500 toneladas, decidiu logo atacar, para salvar o paquete com 206 pessoas, entre os quais mulheres e crianças. Cerca de 300 pessoas segundo o Diário de Notícias ou mais de 1 500, de acordo com o Museu da Marinha.

Aguentou durante 2 horas, armado com duas pequenas peças de proa, uma de 65 mm à vante e outra de 47 mm, à ré. Investiu contra o submarino armado de 6 tubos lança-torpedos e de dois canhões de tiro rápido com calibre de 150 mm. Isso surpreendeu o comandante do submarino, o capitão de corveta Lothar von Arnauld de La Priére, e seu comandante de artilharia, o capitão-tenente Kurt von Piotr, que registaram o facto em termos elogiosos.

Desta luta tão violenta e tão desigual o comandante Arnauld de la Periére disse: "Jamais vi luta mais valente do que a sustentada por aquele velho calhambeque. Os portugueses combatiam como diabos, atirando granadas umas atrás das outras dumas peças de brincar. Catorze dos 40 homens da guarnição estavam mortos no convés e a maior parte dos restantes estavam feridos antes que o barco se rendesse".

Entretanto isso, o vapor São Miguel afastou-se do alcance dos canhões do U-139. As granadas germânicas começam a rebentar dentro do caça-minas, fazendo numerosas vítimas mortais, a primeira das quais foi o aspirante Eloi de Freitas. Só ficou o pequeno canhão de 47 mm da popa a fazer fogo com grande dificuldade. Ao fim de duas horas de combate estavam praticamente esgotadas as munições e parte da guarnição do Augusto de Castilho morta ou ferida. Ao saber que as munições estavam no fim disse ao Imediato: "Deixá-lo! Morro como português ".

O U-139 disparou contra o caça-minas que, por ordem do comandante, tinha içado a bandeira verde rubra da sua querida República, em vez da bandeira branca. Carvalho Araújo que se encontrava na cabine de comando, foi atingido por uma das últimas granadas, cai no convés morto, enquanto o Imediato fica gravemente ferido. O fogo terminou pelas 8h30.

Os 12 dos sobreviventes lançaram-se ao mar numa jangada de salvamento e em coletes de cortiço. Os artilheiros alemães observavam sorridentes as dificuldades dos portugueses. Depois, resolveram fazer sinal aos portugueses para subirem para o seu tombadilho, ajudando-os com cordas e boias lançadas ao mar. O enfermeiro ou médico de bordo começou a fazer uns pensos aos mais feridos, enquanto Von Piostr filmava a cena em todos os seus detalhes. "Também deram uns refrescos em copos de alumínio", escreveu o sargento Simões. O guarda-marinha Ferraz falou em francês com Von Piotr, conseguindo convencê-lo a deixar ir a bordo do caça-minas buscar o bote e os feridos que lá ficaram. Tiveram o consentimento dos alemães, não sendo permitido que levassem um sextante e uma bússola.

Os alemães se limitaram a apontar a direção da Ilha de S. Miguel, iniciando os náufragos portugueses a odisseia de navegarem a remos até à Ponta do Arnel, no Nordeste, na Ilha de S. Miguel. O bote comandado pelo guarda-marinha Ferraz metia água, pelo que foram precisos os sobretudos e luvas para colmatar as brechas [exposto no Museu da Marinha]. Foi um autêntico martírio e esforço, a viagem por mais de 200 milhas em 6 dias quase sem água nem mantimentos. Dos 12 náufragos, 8 estavam feridos, e 1 morreu na viagem. Seis cadáveres foram para o fundo no caça-minas Augusto Castilho, entre eles, o comandante Carvalho Araújo. O artilheiro Von Piotr escreveu no seu relatório: "Foi com grande pesar que deixámos a valente guarnição à sorte incerta num barco prejudicado pelos estilhaços de granada e mediocremente calafetado".