Enciclopédia Açores XXI
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Artigo publicado in

" A União" em 07/05/2006


Em Setembro/Outubro de 1997 publiquei neste jornal algumas ideias sobre o capital cultural que nos ambienta. Fi-lo na esperança ingénua de alguém as aproveitar em termos de animação – turística mas não só, nem sequer principalmente.


Na altura não se falava de parques temáticos: nem se sabia bem o que isso era, como receio não se saber ainda agora, mau grado megalomanias que por aí andam esboçadas. No que então escrevi havia uma referência à Casa da Salga, propriedade da família Merens de Távora e com acesso, mesmo de automóvel, pelo caminho de terra batida perpendicular à costa que até ela sobe a partir de um parque de estacionamento ali existente. Dizia assim nessas notas: Ainda lá está a casa, não de Brianda Pereira, mas aquela em que os castelhanos puseram a sua bandeira e donde foram desalojados pela contra-ofensiva portuguesa. Sabe-se hoje que a carga de gado que os empurrou para o mar e para a morte não foi de toiros bravos, mas sim de quatrocentas vacas, divididas em dois esquadrões, um vindo do lado de São Sebastião, outro do do Porto Judeu. O que na altura eu sugeria era uma comemoração popular e anual desse acontecimento a 25 de Julho, o dia (de São Tiago) em que o combate e o massacre da Salga aconteceram. E acrescentava que isso traria ainda uma vantagem adicional: a de motivar os poderes públicos para adquirirem a casa da Salga – um belíssimo edifício do fim do século XVI – e ali fazerem um pequeno museu da resistência de 1581-1583.


Segunda-feira última voltei à Casa da Salga e dei de cara com as devastações do tempo nesse testemunho único de uma época irrepetível. A casa, ainda há dez anos bem fechada e intacta, é hoje uma ruína. Caiu-lhe boa parte do tecto, desapareceram as portas, partiram-se as janelas, o lixo amontoa-se no seu interior. Desta tristeza sobressai o restante: a nobreza dos materiais nas paredes-mestras – inteiras –, no relógio de sol do cunhal sueste, nas datas gravadas sobre a porta de entrada (1562) e na empena da capela anexa (1682) onde uma grande cruz de madeira permanece sobre o altar conspurcado, enfim, naquelas cantarias de quatro séculos sobreviventes à erosão e à incúria estúpida das gentes. Gentes que somos todos nós, com uma triste primazia para os proprietários, os poderes públicos (regionais, municipais e locais), as associações culturais e todos os lamurientos de que nada aqui se faz. Para desconforto de uns e outros, o que ali resta é uma acusação. Gritante. E que não desaparecerá tão cedo, porque tem resistido e continuará a resistir.


Álvaro Monjardino

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